{"id":2104,"date":"2021-09-30T17:46:15","date_gmt":"2021-09-30T20:46:15","guid":{"rendered":"http:\/\/fundopositivo.org.br\/saudepositiva\/?p=2104"},"modified":"2021-09-30T17:46:15","modified_gmt":"2021-09-30T20:46:15","slug":"a-importancia-e-a-necessidade-de-medicos-humanitarios","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/fundopositivo.org.br\/saudepositiva\/artigos\/a-importancia-e-a-necessidade-de-medicos-humanitarios\/2104\/","title":{"rendered":"A import\u00e2ncia e a necessidade de m\u00e9dicos humanit\u00e1rios"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-small-font-size\">Bruno Branquinho<\/p>\n\n\n\n<p>A forma\u00e7\u00e3o universit\u00e1ria de um m\u00e9dico dura seis anos. Ao longo da gradua\u00e7\u00e3o, ele aprender\u00e1 o b\u00e1sico necess\u00e1rio a todo m\u00e9dico e ter\u00e1 o primeiro contato com diferentes especialidades. Formado, pode ainda fazer a resid\u00eancia m\u00e9dica, um programa de especializa\u00e7\u00e3o na \u00e1rea que preferir. Psiquiatria, Cl\u00ednica M\u00e9dica, Cirurgia, Oftalmologia\u2026 s\u00e3o diversas as especialidades!<\/p>\n\n\n\n<p>Para ser aceito no programa de resid\u00eancia pretendido, o m\u00e9dico deve passar antes por um processo seletivo, quase um novo vestibular: a prova de resid\u00eancia. S\u00e3o cobrados nessa prova assuntos com os quais todo m\u00e9dico deve, em tese, estar familiarizado.<\/p>\n\n\n\n<p>Explico tudo isso pois, h\u00e1 algumas semanas, vi uma postagem no Instagram que me chocou. Era a foto de uma prova de resid\u00eancia que cobrava o conhecimento de termos relacionados \u00e0 sexualidade, como orienta\u00e7\u00e3o sexual, g\u00eanero e transexual\/transg\u00eanero.<\/p>\n\n\n\n<p>A quest\u00e3o em si era bem mal formulada, mas foi chocante ver os coment\u00e1rios de v\u00e1rios colegas (inclusive o autor da postagem, um m\u00e9dico com mais de 20 mil seguidores), criticando a quest\u00e3o por n\u00e3o considerarem o tema relevante para uma prova como aquela. Como se os m\u00e9dicos n\u00e3o precisassem saber do assunto!<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o \u00e9 de hoje que o ensino de sexualidade nas escolas m\u00e9dicas \u00e9 feito com um vi\u00e9s biol\u00f3gico, org\u00e2nico e muitas vezes focado apenas em doen\u00e7as (como a disfun\u00e7\u00e3o er\u00e9til, por exemplo), sem muito discutir sobre g\u00eanero, orienta\u00e7\u00e3o sexual e quest\u00f5es sociais relacionadas \u00e0 sexualidade \u2013 como a homotransfobia, a viol\u00eancia e a misoginia, que tamb\u00e9m contribuem para o adoecimento f\u00edsico e mental. E tamb\u00e9m sobre pessoas que vivem com HIV, que ainda sofrem com estere\u00f3tipos dos anos 80.<\/p>\n\n\n\n<p>Tecnicamente, \u00e9 importante que o m\u00e9dico estude a sexualidade e suas quest\u00f5es, pois o atendimento \u00e0s minorias sexuais demanda algumas especificidades. Al\u00e9m de viver experi\u00eancias singulares, esses pacientes muitas vezes apresentam maior preval\u00eancia de preval\u00eancia de algumas doen\u00e7as f\u00edsicas e transtornos mentais.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas n\u00e3o \u00e9 apenas por isso que o assunto \u00e9 importante.<\/p>\n\n\n\n<p>Dizer que esse tipo de quest\u00e3o n\u00e3o importa para a medicina \u00e9 uma tentativa torpe de barrar o avan\u00e7o do debate sobre identidades, sobre o preconceito e a viol\u00eancia, mantendo o descaso e a indiferen\u00e7a em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s minorias sexuais.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 ignorar o fato de que, para ser um bom m\u00e9dico, \u00e9 preciso muito mais que conhecimento t\u00e9cnico. \u00c9 preciso empatia e interesse pelo paciente, \u00e9 preciso saber que quem est\u00e1 ali \u00e9 um ser humano em sofrimento e n\u00e3o apenas um caso de livro, \u00e9 preciso perceber que muitas vezes o paciente n\u00e3o procura apenas diagn\u00f3stico e rem\u00e9dio, mas sim um olhar atento e um ouvido receptivo aos seus problemas.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cSou humano, nada do que \u00e9 humano me \u00e9 estranho\u201d. A frase, atribu\u00edda a Ter\u00eancio, poeta e dramaturgo romano, me marca porque mostra a chance de proximidade, de abertura em rela\u00e7\u00e3o ao outro. Fa\u00e7o um convite, ent\u00e3o, aos colegas m\u00e9dicos: que sejamos humanos! Que possamos nos despir da imagem antiquada de simples autoridade t\u00e9cnica e inating\u00edvel para podermos nos relacionar com os nossos pacientes de forma mais humana e acolhedora. Todos os m\u00e9dicos deveriam aprender a ser humanos. Mas, infelizmente, isso n\u00e3o se ensina na gradua\u00e7\u00e3o nem na resid\u00eancia.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Bruno Branquinho A forma\u00e7\u00e3o universit\u00e1ria de um m\u00e9dico dura seis anos. Ao longo da gradua\u00e7\u00e3o, ele aprender\u00e1 o b\u00e1sico necess\u00e1rio a todo m\u00e9dico e ter\u00e1 o primeiro contato com diferentes especialidades. Formado, pode ainda fazer a resid\u00eancia m\u00e9dica, um programa de especializa\u00e7\u00e3o na \u00e1rea que preferir. Psiquiatria, Cl\u00ednica M\u00e9dica, Cirurgia, Oftalmologia\u2026 s\u00e3o diversas as especialidades! Para ser aceito no programa de resid\u00eancia pretendido, o m\u00e9dico deve passar antes por um processo seletivo, quase um novo vestibular: a prova de resid\u00eancia. S\u00e3o cobrados nessa prova assuntos com os quais todo m\u00e9dico deve, em tese, estar familiarizado. Explico tudo isso pois, h\u00e1 algumas semanas, vi uma postagem no Instagram que me chocou. Era a foto de uma prova de resid\u00eancia que cobrava o conhecimento de termos relacionados \u00e0 sexualidade, como orienta\u00e7\u00e3o sexual, g\u00eanero e transexual\/transg\u00eanero. A quest\u00e3o em si era bem mal formulada, mas foi chocante ver os coment\u00e1rios de v\u00e1rios colegas (inclusive o autor da postagem, um m\u00e9dico com mais de 20 mil seguidores), criticando a quest\u00e3o por n\u00e3o considerarem o tema relevante para uma prova como aquela. Como se os m\u00e9dicos n\u00e3o precisassem saber do assunto! N\u00e3o \u00e9 de hoje que o ensino de sexualidade nas escolas m\u00e9dicas \u00e9 feito com um vi\u00e9s biol\u00f3gico, org\u00e2nico e muitas vezes focado apenas em doen\u00e7as (como a disfun\u00e7\u00e3o er\u00e9til, por exemplo), sem muito discutir sobre g\u00eanero, orienta\u00e7\u00e3o sexual e quest\u00f5es sociais relacionadas \u00e0 sexualidade \u2013 como a homotransfobia, a viol\u00eancia e a misoginia, que tamb\u00e9m contribuem para o adoecimento f\u00edsico e mental. E tamb\u00e9m sobre pessoas que vivem com HIV, que ainda sofrem com estere\u00f3tipos dos anos 80. Tecnicamente, \u00e9 importante que o m\u00e9dico estude a sexualidade e suas quest\u00f5es, pois o atendimento \u00e0s minorias sexuais demanda algumas especificidades. Al\u00e9m de viver experi\u00eancias singulares, esses pacientes muitas vezes apresentam maior preval\u00eancia de preval\u00eancia de algumas doen\u00e7as f\u00edsicas e transtornos mentais. Mas n\u00e3o \u00e9 apenas por isso que o assunto \u00e9 importante. Dizer que esse tipo de quest\u00e3o n\u00e3o importa para a medicina \u00e9 uma tentativa torpe de barrar o avan\u00e7o do debate sobre identidades, sobre o preconceito e a viol\u00eancia, mantendo o descaso e a indiferen\u00e7a em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s minorias sexuais. \u00c9 ignorar o fato de que, para ser um bom m\u00e9dico, \u00e9 preciso muito mais que conhecimento t\u00e9cnico. \u00c9 preciso empatia e interesse pelo paciente, \u00e9 preciso saber que quem est\u00e1 ali \u00e9 um ser humano em sofrimento e n\u00e3o apenas um caso de livro, \u00e9 preciso perceber que muitas vezes o paciente n\u00e3o procura apenas diagn\u00f3stico e rem\u00e9dio, mas sim um olhar atento e um ouvido receptivo aos seus problemas. \u201cSou humano, nada do que \u00e9 humano me \u00e9 estranho\u201d. A frase, atribu\u00edda a Ter\u00eancio, poeta e dramaturgo romano, me marca porque mostra a chance de proximidade, de abertura em rela\u00e7\u00e3o ao outro. 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